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"A minha mãe ainda não sabe como não virei ladrão ou traficante"

Matheus Nunes é um dos jovens que está a despontar no Sporting, e prova disso é o interesse do Everton na sua contratação depois de uma época de bom nível ao serviço dos campeões nacionais.

Mas o médio luso-brasileiro, que até chegou a trabalhar numa pastelaria quando jogava no Ericeirense, garante que o caminho que o levou até à elite não foi nada fácil.

Em entrevista ao podcast leonino ‘ADN de Leão’, Matheus Nunes recordou a infância difícil no Brasil, depois de ter perdido o pai quando era muito novo.

“Sempre fui habituado a ter responsabilidade, porque em casa cresci sem pai. Só fui educado pela minha mãe. Sempre cresci com um certo tipo de responsabilidade, porque fiquei como figura masculina em casa quando o meu irmão mais velho saiu de casa. Houve um período em que vivemos numa favela. Entretanto, o meu irmão foi viver para casa do pai dele, só esteve lá connosco alguns meses”, começou por recordar o luso-brasileiro.

“Aí não havia mais nenhuma figura masculina, era só eu. Nunca conheci o meu pai. Sou eu, a minha mãe, a minha irmã mais velha e o meu irmão mais velho. E nos últimos 10 anos tenho as minhas duas irmãs mais novas e o meu padrasto [John], que considero como pai, apesar de não ser sangue do sangue”, acrescentou.

“Quando fomos campeões, o momento mais emocionante para mim não foi quando o árbitro apitou ou quando fizemos o golo. Foi depois de o jogo ter acabado, quando olhei lá para cima, para a bancada. A minha mãe estava lá, ela e o meu irmão. Foi indescritível, começou-me a passar o filme todo pela cabeça. É igual aos filmes. Lembrei-me do que me marcou na infância, das dificuldades que passava. Antes de conhecer o meu padrasto passei muitas dificuldades, não tinha o que comer”, atirou Matheus Nunes, prosseguindo:

“Em 2018 não estava nem para aí quanto às aulas e a minha família disse que tinha de começar a trabalhar ou que então tinha de largar o futebol. Fui para a pastelaria do meu padrinho, levantava-me às 5h00 e acabava às 18h00 para ainda ir treinar depois. Hoje é diferente, tenho pessoas que procuram casa para mim, que me ajudam. Vim com 13 anos para Portugal e no Brasil fui nómada, mudei dez vezes de casa, cheguei a morar numa favela. Lembro-me de chegar com as solas dos pés todas negras de jogar à bola na rua. Houve alturas que não tive para comer. A minha mãe às vezes ainda se admira com o facto de não ter ‘virado’ ladrão ou traficante de droga. Tive as pessoas certas comigo. Algumas pessoas que eram minhas amigas seguiram esse caminho. Não desejo o que passei a ninguém”, sustentou.

O luso-brasileiro recordou ainda o golo marcado na Pedreira diante do Sporting de Braga, que deu a vitória aos comandados de Rúben Amorim.

“É um golo especial. Depois da receção que tivemos no hotel, fui para aquele jogo confiante. Na nossa saída para o estádio, estava a chover, havia muita malta a gritar os nossos nomes, foi incrível. À saída do estádio foi igual, lembro-me de entrar para o autocarro e dizer ao Jovane, que estava atrás de mim, ‘mano, se isto está assim, imagina se este jogo tivesse adeptos’. O golo… é um segundo, aquilo não foi nada planeado, saiu, olhei para ele, fiz assim, ele viu, fez também, meteu a bola muito bem, nem tive de tocá-la, só rematei. Sempre fui habituado a ter responsabilidade, porque cresci em casa sem pai, então sempre cresci com responsabilidade”, concluiu.

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